quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Reflexão sobre a reflexão
terça-feira, 12 de agosto de 2008
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Engana olho
Quando uma réplica de cera da atriz Marilyn Monroe foi instalada no museu de esculturas Madame Tussauds, em 1973, os visitantes ficaram encantados com a imagem da diva do cinema norte-americano. Os mais pigmalionistas, uma galera taradona por esculturas, arriscaram bolinar, beijar e até pedir um autógrafo para Monroe. Sem sucesso, é claro.
Após três décadas, o salão repleto de gente famosa (nunca se sabe quem é de carne e osso, e quem é de parafina) ganhou outras inúmeras celebridades mórbidas, sem cérebros - destaque para uma cópia do bebê de Angelina Jolie e Brad Pitt, exposto no ano passado, em Nova York, Estados Unidos.
Do cineasta Woody Allen ao jogador de futebol Pelé, todos os modelos de cera conquistaram o seu espaço no panteão das celebridades mundiais graças ao que fizeram ao longo de toda a sua vida. Na vitrine da história da humanidade, quem se destaca são aqueles que, de uma forma ou de outra, preenchem a carência de uma sociedade que clama por ícones.
Se na prateleira das necessidades sociais há falta de sensualidade e ousadia, basta projetar-se em personalidades como a rainha do pop Madonna ou na cantora de r&b Beyoncé. Precisa de uma dose de maldade? Vai aí a banda Ozzy Osbourne ou o cantor Marilyn Manson? E se o país passa por uma frustração política, receita-se um metalúrgico populista para dopar, temporariamente, as dores de toda uma nação.
Às vezes, em busca da beleza, que é uma atribuição da genética, e não uma realização pessoal, mulheres se lançam numa cruzada em prol da estética - botox, esfoliação, plástica, lipoaspiração, drenagem linfática e, vá lá, dieta do sol. Todo esforço, enfim, é uma tentativa de se tornar a imagem e semelhança daquela atriz beldade da novela das oito ou uma fotocópia de cantora indie.
A crise de identidade, aliás, evidencia-se a partir da consagração efêmera de personagens comuns. Entre um reality show e outro, são alçadas ao holofote da mídia frentistas, professores de escolas públicas, chefes de cozinha e médicos. A linha tênue que divide a fama do anonimato resume-se à seguinte questão: são essas personalidades ilusões de óptica?
Engana olho?
No século 17, os holandeses desenvolveram uma técnica de pintura renascentista que consistia em dar um tom tridimensional à tela a óleo. A noção da realidade era tão extrema que, ao pincelar um papel dobrado em cima da mesa, alguns pintores provocavam no expectador uma tentação em querer desdobrá-lo. Esse exercício pictório foi incorporado e aperfeiçoado pelos franceses, os quais cunharam a expressão trompe-l’oeil, isto é, "engana o olho".
Desde então, o estigma visual da representação da realidade confunde até mesmo os olhos de jornalistas mais atentos. Para desmantelar esse paradigma da cegueira, provocada pelo assédio da imagem espartana, vale seguir o exemplo da repórter e escritora Eliane Brum, que mergulhou no cotidiano para trazer à luz vidas comuns, deixadas à deriva da fama - o carregador de malas do aeroporto que nunca voou ou o homem que comia vidro, mas só se machucava com a sua invisibilidade. O relato dessas histórias, que jamais entrarão no rol da Madame Tussauds, ganhou o título do livro "A vida que ninguém vê" (Editora Arquipélago Editorial), considerado pelo Prêmio Jabuti "melhor livro de reportagem de 2006".
A faceira autora gaúcha, natural de Ijuí, Rio Grande do Sul, me agraciou, recentemente, com um livro de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, que ganhou versão cinematográfica com o mesmo título, em 1966, por François Truffaut. O presente dela me fisgou a partir deste trecho: "Ele [a personagem Montag] se viu nos olhos dela, suspenso em duas gotas cintilantes de água límpida, uma imagem escura e minúscula, em ínfimos detalhes, as linhas ao redor de sua boca, tudo, como se os olhos dela fossem dois pedaços miraculosos de âmbar violeta que pudessem capturá-lo e mantê-lo intacto!".
Desde de então, senti uma enorme necessidade de fazer a experiência do anti-jornalismo - me lancei à procura de fatos e histórias ordinárias, que, por não serem carregadas de um tom sensacionalista, trazem em sua essência a pureza do natural. Não tenho dúvidas de que nas próximas postagens (bem menores do que este tratado!) você irá se reconhecer e, por que não?, se escandalizar com o extraordinário que se esconde por trás dos acontecimentos corriqueiros. Afinal, quando eu escrevo, particularmente, não tento receitar respostas para os outros. Se assim fosse, trabalharia como médico. Apenas me lanço em busca de uma solução para mim mesmo, uma espécie de terapia em que tento vasculhar alguma direção literária que satisfaça as minhas inquietações interiores.
Este "blog experimental", portanto, será um pouco disso tudo e o avesso também. Ao que tudo indica, a viagem pelo cotidiano - por meio de um olhar faminto de histórias anônimas - tem a intenção de aportar naquelas notícias periféricas, que têm o potencial de mudar o mundo. O nosso mundinho. Bem-vindo a bordo.
terça-feira, 1 de julho de 2008
O (in)tocável

Ainda era garoto quando uma mancha lustrosa ganhou espaço em seu corpo. A princípio, especulava-se que poderia ser um arranhão qualquer, mas estendeu-se em forma de inchaço da cabeça até os pés. Imediatamente foi levado ao templo, conforme o costume daquela época. O sacerdote, analítico, constatou que a lesão parecia ser mais profunda do que a epiderme. Foi assim que, segundo a lei dos judeus, o examinado foi declarado “imundo”. Após sete dias, a carne viva estava exposta diante dos olhos de quem quisesse ver. Alguns evitavam se aproximar e torciam o nariz, enquanto outros sentiam dó daquele menino que tantas vezes se lambuzara de lama à beira do rio Jordão. O laudo, portanto, era visível: estava com lepra.
Imediatamente, suas vestes foram rasgadas; seus cabelos, desgrenhados. Expulso do arraial, onde acostumara celebrar a festa dos pães asmos, teve que se privar do contato humano. O ser atônito de um jovem angustiado calava-se diante das muralhas do leprosário. Estava definitivamente alijado dos afagos maternos; seu pai já não lhe bagunçaria o topete em sinal de aprovação. Teria saudade de um simples abraço, ou de um involuntário esbarrão. O único toque que ora sentia em sua pele era o de estilhaços de cerâmica, com os quais coçava as úlceras avermelhadas.
O exílio particular das palavras, a solidão petrificada, o ressentimento nutrido pelo ódio de si mesmo sufocavam a esperança de um dia ser curado novamente. Os anos passaram-se, e aquele menino cresceu, tornou-se homem. Seu corpo estava tão escoriado que perdera a sensibilidade não só do tato, mas também da audição. Por onde ele passava, a dezenas de metros de distância, as pessoas o repudiavam: “Imundo, imundo!”. Entretanto, aquelas vozes ferinas não o atingiam mais, pois havia aceitado seu estado espúrio.
Um dia, porém, notou que a cidade estava vazia. Não havia fariseus nem salteadores, muito menos viúvas no vilarejo de Cafarnaum. Tudo estava quieto. As ruas por onde corria, quando criança, estavam desérticas. Após alguns passos tímidos, desistiu da idéia. Sentiu receio de ser humilhado e expulso do convívio humano regular, como o fora há alguns anos. Enquanto digladiava em seu íntimo, imediatamente uma multidão confluiu para o pé do monte, onde a figura de um leproso permanecia estática.
O burburinho, de longe, anunciava as proezas de um certo Jesus, natural de Nazaré. Naquelas redondezas muito se falava a respeito dele, filho de um carpinteiro, amigo de pescadores. Uma vez – agora se lembrava – chegou ao leprosário o boato de que um galileu, não se sabe se mestre ou profeta, havia curado um paralítico, que foi baixado pelo teto de uma casa, onde havia um ajuntamento incomum para ouvir esse pregador. Não seria o mesmo esse que agora se aproximava?
Em questões de segundos, as dúvidas se dissiparam, e uma fagulha de esperança reacendeu no peito daquele homem enfermo, que nunca deixou de ser menino. Correu, então, em direção ao tal do Mestre. “Adorou-o, dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me. E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpou da sua lepra” (Mateus 8.2-3).
Há anos aquele sujeito não recebia um aperto de mão nem um abraço fraterno, tampouco um singelo toque de um desconhecido. Entre os dedos do Cristo e as feridas do abatido, o amor incondicional encontra espaço para jorrar vida e graça nas entranhas da alma. Sob as mãos calejadas do singelo carpinteiro, a imundícia torna-se doce, suave, suportável. O contato físico entre o Médico dos médicos e o ulcerado vai muito além do corpo. Jesus toca no ressentimento mais íntimo, cura a rejeição e converte o ódio em perdão.
A própria voz mansa do Servo Sofredor é remédio. Como diz Henri Nouwen, “A voz do amor é muito suave, gentil, fala comigo nos lugares mais escondidos do meu ser. Não é rude querendo se impor e pedindo atenção. É a voz de alguém quebrantado que só pode ser ouvido por aqueles que se deixam ser tocados”. A partir do toque gracioso de Jesus, tudo se faz novo – os pastos do deserto reverdecem; rios encontram ermos; o arvoredo dá o seu fruto; a figueira e a vide produzem com vigor, celebrando a restauração.
Um novo capítulo, então, inicia-se na história daquele ex-leproso: “Vai mostrar-te ao sacerdote e fazer a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho ao povo”, receita Jesus. A ordem chega a ser tão imperativa que o sarado corre em passadas largas em direção ao sacerdote, o qual recolhe duas aves vivas, pau de cedro, estofo de carmesim e hissopo, para realizar o rito de purificação (Levítico 14). Após o oitavo dia – ansiosamente aguardado –, um cordeiro será imolado no holocausto como oferta pela santificação do corpo. Aquele homem, não mais contaminado, se tornará puro como o ouro que reveste a arca do testemunho (Êxodo 25.11).
Se a função de um cronista é a de alçar vôos longínquos com a imaginação, aqui desempenho o meu papel: a Bíblia não relata qual foi o paradeiro ulterior daquele personagem, mas presumo que, ao voltar para o seu lar, o ex-ulcerado abraçou bem forte os seus familiares, quase os asfixiando. A imagem que me vem à mente é a de um homem que descobriu o valor do toque gracioso de Jesus. Para mim, essa cena se torna mais cristalina quando alguns amigos, mais chegados que irmãos, tocam em minhas feridas da alma, sem qualquer tipo de nojo ou receio de me magoar. Sobretudo, é um toque de amor. Um amor incondicional do Cristo que foi ferido na cruz para que, um dia, eu pudesse ter a vida eterna. “Did you know Your wounds would one day heal the world?” (tradução livre: Você sabia que Seus ferimentos um dia curariam o mundo? – trecho da música “Wish”, de Brian Littrell).
Ilustração: Alexandre Vieira da Silva (Tchê-tchê)
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Ele é o problema do mundo!

Os leitores do jornal New York Times não desconfiavam de que aquela edição de 23 de outubro de 1908 trazia uma resenha de um livro que influenciaria as discussões entre razão e fé nos cem anos seguintes. Era Ortodoxia, do filósofo, jornalista, poeta, ensaísta e ficcionista Gilbert Keith Chesterton (1874-1936).
“Mr. Chesterton é, sobremodo, o mais hábil intelectual dos tempos modernos, não só porque ele executa as mais incríveis proezas da revolução do pensamento, mas as realiza quando caminha na corda bamba de sua própria tensão”, escreveu a crítica Jessie B. Rittenhouse, nas páginas do periódico nova-iorquino, à época da publicação da obra cristã.
Não bastassem
Em um embate entre Chesterton e o editor de um jornal socialista de Londres, Robert Blatchfor, o pensador cristão se esquivava das provocações do seu oponente com muito humor e uma dose de ironia. No fim das discussões, aliás, sempre conquistava a platéia e desregulava o refutador ao convidá-lo para tomar um drink num pub mais próximo do local do debate. “Ele é tão alegre que parece ter encontrado o próprio Deus!”, satirizou o autor de A Metamorfose.
Dessas discussões resultou a obra centenária Ortodoxia, reeditada pela Editora Mundo Cristão. É bem provável que esse livro não ganhe visibilidade nas prateleiras das bibliotecas universitárias, nem mesmo seja reconhecido como um testamento à geração presente de intelectuais. Mas o que é inegável é a produção vultuosa de um crítico que se dedicou com afinco em seus mais de 4 mil artigos, 100 livros e 200 contos, louváveis por leitores, acadêmicos, donas-de-casa, estudantes, entre outros.
Em meio a tantas produções, destacam-se também as biografias de Tomás de Aquino e Fransisco de Assis e a série ficcional de livros sobre o personagem Padre Brown, um detetive-teólogo que surpreende os leitores pela destreza de sua lógica. “Chesterton trouxe uma sensibilidade literária muito especial à sua linguagem”, publicou o The New York Times Book Review.
Autor de Everlasting Man (Homem Eterno), livro responsável por influenciar o pensador cristão C. S. Lewis, Chesterton costumava dizer que louco não é o homem que perdeu a razão, mas aquele que perdeu tudo menos a razão. Sob esse parâmetro, ele defendia aquilo em que acreditava a ferro e fogo, despachando as teorias relativistas, socialistas e materialistas numa época em que estava em ebulição as idéias de Marx, Darwin e Nietzsche.
Para estes dias, Ortodoxia é uma espécie de lampejo dourado entre tantos cascalhos no fundo do rio, isto é, em meio a tantos títulos ateístas, disseminados no mercado brasileiro – como, por exemplo, “Deus Não é Grande”, de Christopher Hitchens, e “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins -, a publicação centenária é uma luz para a igreja cristã, bombardeada de todos os lados por ideários humanistas.
"Quando nos perguntamos por que os ovos se transformam em pássaros ou por que as frutas caem no outono, devemos responder exatamente como a fada madrinha responderia se Cinderela lhe perguntasse por que os ratos se transformaram em cavalos ou por que as roupas dela desapareceram depois da meia-noite. Devemos responder que é MÁGICA. Não é uma ‘lei’, pois não entendemos sua fórmula geral. Não é uma necessidade, pois, embora contemos com esse tipo de conhecimento na prática, não temos o direito de dizer que ele sempre deve acontecer”, escreveu.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Quem, afinal, é Jesus?
A enciclopédia virtual Wikipédia (www.wikipedia.org), criada em 2001, se tornou um fenômeno da internet. Com mais de 9 milhões de verbetes, disponíveis em cerca de 250 idiomas, a ferramenta é fonte de consulta gratuita entre internautas. Como qualquer pessoa pode alterar o conteúdo do site (pasme: é isso o que os especialistas chamam de Web 2.0, em que o usuário interage com a internet), os temas da enciclopédia on-line ficam expostos às (in)definições dos usuários. Só pra ter uma noção da bagunça: há artigos que são modificados aproximadamente 40 mil vezes por mês. Caso do tópico "Jesus".Segundo um levantamento sobre incorreções na Wikipédia, feita pelo estudioso norte-americano Loren Terveen, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, um dos verbetes campeão de alterações é o dedicado a "Jesus", porque a maioria dos usuários que modificam essa fonte de consulta são de diversos segmentos do cristianismo. Na opinião do cientista, Jesus é um assunto tão aberto como o presidente dos EUA George W. Bush, que encabeça a lista dos mais modificados na enciclopédia virtual, ou como Michael Jackson e os Beatles, alvos de comentários contraditórios na página.
Mas por que há tantas controvérsias entre os wikipedistas quando o assunto é: quem é Jesus? Penso que enquanto o Filho do Homem for um conceito a ser definido, discutido ou (re)interpretado pelas diversas camadas religiosas, o mundo conhecerá diversos caminhos que levam a respostas herméticas, a resoluções teóricas, sem frescor da vida que circula no cotidiano. Afinal, Cristo é uma Pessoa Viva com quem podemos interagir, nos relacionar e desenvolver vínculos de amizade, independente dos dogmas ou das crenças.
Sem dúvidas, existiriam bem menos discordâncias quanto à identidade de Jesus se os usuários da Wikipédia, ao invés de levantarem interpretações teológicas, trocassem experiências de um relacionamento enraizado na pessoalidade de Jesus, pois Ele é O Caminho, A Verdade e A VIDA.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Nói trupica, mai naum freia

Gargalhando, então, ela me disse numa voz ofegante: "Nói trupica, mai naum freia, né fio?". Parafraseando Martin Luther King Jr., pressuponho que aquela senhora quis me dizer: "Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje; mas continue em frente de qualquer jeito".
Acho que a "dona Neves" do metrô nem imagina quem é Martin Luther King Jr., nem que ela mudou a rota do meu dia. A frase dela, simplesmente, inaugurou a minha quarta-feira com uma alegria sobrenatural, contagiante! Não conseguia parar de rir daquela cena...E foi quando eu pensei (atenção, momento sabedoria): como é bom ser feliz, mesmo quando a gente "trupica" na vida.
(Ainda no metrô: por favor, alguém pode sancionar uma lei que proíbe os chamados "DJs de vagão"? Está proliferando uma galerinha que liga os celulares MP3 no último volume dentro de qualquer transporte público, sem dar a mínima para a preferência musical de cada indivíduo. É quase um estupro sonoro. Principalmente, quando se toca a dança do Créu na velocidade 5: "Créu, créu, créu, créu...")
PLAY TODAY
YOU ARE MY JOY
(David Crowder Band)
And He set me on fire
E Ele me inflamou
And I am burning alive
E eu estou vivo em chamas
With His breath in my lungs
Com o seu sopro em meus pulmões
I am coming undone
Eu estou me consumindo
And I cannot hold it in and remain composed
E eu não posso contê-lo e controlar
Love's taken over me and so
O amor tomou conta de mim e então
I propose the letting myself go
Eu proponho a renúncia de mim
I am letting myself go
Estou abrindo mão de mim mesmo
You are my joy
Você é a minha alegria
You are my joy
Você é a minha alegria
You are my joy
Você é a minha alegria
You are my joy
Você é a minha alegria
I need to catch my breath, I need to
Preciso recompor meu fôlego, Eu preciso
I need to catch my breath, give me a moment now
Preciso recompor meu fôlego, me dê um momento agora
I'm laughing so hard...
Estou rindo muito
terça-feira, 27 de maio de 2008
Olhar insubordinado
Eliane Brum sempre lançou o seu olhar sobre pessoas comuns e descobriu nelas histórias preciosas - do carregador de malas do aeroporto que nunca voou ao homem que comia vidro. Mergulhada na realidade do cotidiano, a jornalista, natural de Ijuí, interior do Rio Grande Sul, trouxe à luz casos de personagens irrelevantes para a mídia, fatos em que o "cachorro morde o homem", e não o contrário disso. O relato dessa odisséia pela periferia da sociedade ganhou o título de "A Vida Que Ninguém Vê" (Editora Arquipélago Editorial), um livro que por sua excelência jornalística faturou o Jabuti em 2006, mas não é encontrado na biblioteca de uma faculdade de Comunicação Social como a Cásper Líbero.
Apesar de estar em evidência, Eliane Brum, 42, quando observada, vira uma garota faceira, finge que não é com ela. Tenta sair pela tangente, esquivando-se gentilmente de qualquer análise que custe uma limitação em palavras da sua pessoa. "Um olhar sobre mim? Eu sou uma pessoa que gosta de observar, mas não gosto que me vejam. Sempre fico no canto, olhando. Desde pequena eu sou assim, quando via as luzes acesas nos apartamentos e tentava imaginar as histórias daquelas pessoas. Me Sinto mais confortável quando não sou notada", alerta a repórter especial da revista Época, que completa em 2008 duas décadas de carreira.
De chimarrão na mão e meia colorida no pé, a autora é uma singeleza só - abre a porta do seu apartamento de 130m², na região de Pinheiros, em São Paulo, para conversar numa terça-feira, às 19h15, com um estudante de Jornalismo, que faltara à aula para tomar nota de uma profissional da palavra.
Despretensiosa
Sentada no tapete com as costas reclinadas em seu sofá cinza, posicionado, aliás, estrategicamente ao lado da estante de livros, onde costuma fisgar figurões como Philip Roth, Ian McEwan, Lovecraft, Ray Bradbury, entre outros, Eliane conta sobre a sua indecisão na hora de prestar vestibular: "Fiz meu primeiro vestibular para Biologia, depois fui me inscrever para Informática, mas na hora achei que ia ter muita matemática e escolhi Jornalismo. Acabei fazendo História na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Jornalismo na PUC, em Porto Alegre. Mas só me formei em Jornalismo".
Ao contrário dos estudantes que ingressam no curso de Jornalismo certos de que escolheram a profissão correta, a escritora recorda que nunca esteve segura da carreira em que estava seguindo. "Eu fiz toda a faculdade sem nenhuma convicção. Eu achava a maioria das aulas muito chatas. Fiz História porque queria saber das histórias das pessoas nas várias épocas. Mas as aulas de História, naquele tempo, eram bem áridas, as pessoas pouco apareciam. E não me via sendo jornalista, era muito tímida ", conta.
Um dia, porém, Eliane quebrou o seu pré-conceito em relação ao curso de Jornalismo numa aula do professor Marques Leonam, de quem fala com afeto nos olhos - "ele me elogiava muito, disse que eu sabia escrever... Foi transformador ouvir aquelas palavras dele". Aceitando o desafio de redigir um texto para a disciplina do mestre, ela fez uma reportagem sobre a "longa fila à qual todos somos destinados, desde o nascimento até a morte". O texto, bem costurado, rendeu à ijuiensse a premiação do Set Universitário de 1988, concurso entre os universitários sulistas, e também uma vaga de estagiária no jornal gaúcho Zero Hora.
"Eu sempre gostei de escrever. Escrevia o que sentia desde que me alfabetizei. Era como eu lidava com a minha angústia desde criança. Mas foi na ZH que descobri que adorava ser jornalista. E descobri também que as pessoas gostavam do que eu escrevia. Mas o começo, é claro, foi bem difícil. Lembro da minha primeira pauta: fui escrever sobre uma galeria barra pesada. Cheguei com o carro do jornal para apurar o acontecido. Eu ficava pensando comigo mesma: 'o que eu estou fazendo aqui?'. Não pelo perigo, mas porque era um peso ser jornalista do jornal mais importante do Rio Grande do Sul. Mas eu consegui superar o medo e voltei para a Redação com uma reportagem gigantesca, que nunca foi publicada [risos]", relembra.
Aos poucos, Eliane foi conquistando o seu espaço nas páginas do jornal porto alegrense, fundado em maio de 1964. Enquanto não estava nas ruas se infiltrando em rodinhas de assuntos populares - maior diversão da repórter -, cuidava da sua filha Maíra, hoje com 26 anos, formada em Psicologia. Mãe solteira aos 15 anos de idade, a jornalista passou por uns bocados para educar e criar a sua "pupila".
Mulher de fibra
Mesmo em meio às adversidades da vida, que lhe renderam um espírito quebrado, sensível e aguçado para o submundo, a filha de professores - a mãe, Vanyr, ensinava Português e Literatura; o pai, Argemiro, professor de Português, fundou a Universidade de Ijuí - teve a sorte mudada. No ano de 1993, após escrever uma reportagem criticando um famoso restaurante italiano de Porto Alegre, a repórter foi parar na mesa do então diretor de Redação do Zero Hora, Augusto Nunes. Ele queria que Eliane fosse enviada especial ao Rio de Janeiro para apurar sobre a família real, que desembarcou no Brasil em 1808. "Era a única chance que eu tinha diante do chefe. E não a deixei passar batida. Fui logo expondo pra ele sobre a minha vontade de refazer a trajetória da Coluna Prestes [movimento político-militar ligado ao tenentismo]. E não é que ele topou logo de cara fazer uma reportagem sobre isso?", relata.
Ao receber o aval de Nunes, Eliane partiu com a missão de refazer a jornada dos revoltosos de Prestes. Só que, ao perambular pelas entranhas do país, ela descobriu, ouvindo os relatos de testemunhas oculares do movimento, uma outra versão do mito, em nuanças bem diferentes daquelas que a História costumava pintar: "Moradores foram mortos, vilarejos saqueados, aconteceram torturas e estupros. Meu maior medo antes de viajar é que ninguém lembrasse do que tinha acontecido tanto tempo antes. Mas a Coluna era a lembrança mais marcante da vida daquelas pessoas que não eram nem rebeldes nem governistas, eram o povo do caminho. Seus destinos haviam sido alterados pela passagem dos revoltosos, que em geral eram em maior número que a população dos lugarejos por onde passavam. E precisavam comer onde a comida era pouca e levavam os animais que eram ao mesmo tempo transporte e instrumento de trabalho. Demorei para entender o que aqueles velhinhos estavam me contando. Para mim também a Coluna Prestes era um mito".
A reportagem, quando publicada, foi alvo de retaliação de jornalistas e historiadores brasileiros: "Naquela época a Coluna Prestes era um mito, algumas pessoas chegaram a falar numa conspiração da direita para denegrir a imagem do Prestes. E isso no início de 1994! Alguns colegas no jornal se afastaram de mim. Eu era muito jovem e foi muito difícil lidar com isso. Mas eu havia refeito a marcha, me embrenhado no país e entrevistado uma centena de pessoas. Minha reportagem era a memória de quem nunca tinha sido ouvido, o povo a quem a Coluna Prestes queria salvar. Sua versão sobre a passagem da Coluna contribui para a compreensão daquele episódio e daquele momento do país, torna a História mais complexa. E eu acredito que a História chega mais perto da verdade quando se afasta dos heróis e alcança os homens."
Em 1999, cinco anos depois da polêmica, arquivos foram abertos no CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação Histórica) da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, comprovando por meio de correspondências entre os comandantes da Coluna que os depoimentos dos sobreviventes colhidos por Eliane eram coerentes. Essa experiência, considerada a mais importante na vida da jornalista, resultou num livro cujo título é: "Coluna Prestes - O Avesso da Lenda" (Arte e Ofícios, em 1994).
"A reportagem sobre a Coluna marcou a minha vida. Foi nessa viagem que conheci o país e a mim mesma. Eu tinha lido muito sobre o tema, me preparado. Mas, no meio do caminho, aprendi a ouvir o que as pessoas têm a me dizer. Nunca acreditei no jornalismo de tese, que sai para as ruas para encaixotar a realidade, manipular os fatos para que caibam na tese do jornalista ou do veículo", ensina.
Tendo o seu trabalho reconhecido em grande parte do território nacional, a repórter especial do ZH foi convidada para migrar à imprensa paulista. Após onze anos trabalhando em Porto Alegre, Eliane sentiu-se desafiada a lançar o seu olhar insubordinado sobre a tumultuada cidade de São Paulo. Foi para a revista Época, onde escreveu sobre os mais variados temas - do garimpo no Eldorado do Juma ao igarapé selvagem Riozinho do Anfrísio.
"A reportagem tem uma enorme importância em minha vida porque é por meio dela que eu me descubro no mundo. E todas as vezes que eu saio pra rua, saio pensando que estou produzindo um documento. A gente, repórter, conta a história cotidiana de uma determinada época ou de uma determinada pessoa. E o que a gente faz, uma nota ou uma reportagem de dez páginas, é um registro histórico. Quando um pesquisador no futuro quiser estudar um aspecto dessa época, vai encontrar nossa matéria num arquivo digital. E, se fizermos bem o nosso trabalho, vai ser bem informado. Se fizermos mal, construirá uma idéia equivocada de nossa época. Meu compromisso não é com o lugar em que eu trabalho, mas com as pessoas que me lêem, com a história que conto", sentencia enquanto franze a sobrancelha desenhada, intercalando o gesto com uma golada de chimarrão.
Estranha no ninho
Apesar de gostar de se embrenhar na Amazônia, lugar onde revela ter tido um encontro particular com Deus, a autora descobriu na metrópole paulistana os prazeres da gastronomia global. "Adoro feijoada. Eu sou muito comilona", confessa.
Há oito anos morando em São Paulo, a autora diverte-se ao dizer que ainda não aprendeu a orientar-se pelas ruas movimentadas da cidade grande. Eliane recorre à corrida e ao bom papo de taxistas para ir até a Editora Globo.
E é lá do 6º andar da Av. Jaguaré 1.485, São Paulo, onde ela toca as suas reportagens. Recentemente, Eliane conta que tem se debruçado sobre dois projetos especiais. O primeiro trata-se de uma coletânea das melhores reportagens escritas por ela na revista Época - esse livro será publicado pela Editora Globo no segundo semestre deste ano. Já o segundo projeto é um pouco mais complexo e, de certa forma, enigmático. Ela apenas faz menção a um documentário que está em fase embrionária - autora da produção "Uma História Severina" (2005), Eliane encontra nos conselhos do seu marido cineasta, João Guimarães, todo o apoio que precisa para seguir adiante com as incursões pelo mundo do cinema.
Ao final do papo, que dura cerca de 2h40, a autora presenteia o estudante com um livro de Ray Bradbury, Fahrenheit 451. "Este livro mudou a minha vida", refere-se à obra que ganhou adaptação cinematográfica sob a óptica de François Truffaut, em 1966. O ato espontâneo, seguido de uma dedicatória particular, gera um silêncio. Apenas se ouve o barulho do chimarrão na cuia. Lágrimas contidas. Risadas. Livros. Dedicatória. Fotos. Uma aula de jornalismo, humanidade e vocação.
Observa-se, então, que Eliane é muito sensível, sincera e, às vezes, até ingênua. Mas só por isso consegue tanta originalidade e graça quando cria. Jornalistas prevenidos, adestrados e manufaturados são sempre previsíveis, performáticos e, por isso, menos gente. A repórter parece viver à terceira margem do rio. Afinal, não é qualquer um que se preocupa se o entrevistador, sendo ele um mero estudante, estava com fome. "Fiquei com o coração apertado depois que vc saiu, quando vi a hora e me dei conta que vc tinha de ter comido, tinha de ter bebido água, tinha de ter tomado pelo menos um cafezinho!", escreveu Eliane. "Desculpa, eu costumo ser mais atenciosa, acho que fiquei falando e perdi a noção". Justamente por tudo o que você contou é que está desculpada.
Silêncio dos inocentes

De longa data, uma questão insiste em perturbar todos nós. Sejam idosos, jovens, crianças ou adultos, qualquer indivíduo, mais cedo ou mais tarde, terá que encarar a ausência de resposta quanto à (in) existência de Deus.
Para se chegar a uma equação aproximada desse problema, a história foi manchada com sangue e fogo - fossem nas Cruzadas ou na Inquisição. Se não bastasse, ao longo do século XX teorias marxistas e teses freudianas romperam com a bolha da religião, que, segundo o autor de O Capital, é o "ópio do povo".
O embate entre fé e razão, contudo, reforçou o escopo de que, embora muitas teses e antíteses sejam levantadas, não há um consenso geral. E nunca o haverá. Afinal, enquanto não houver um esclarecimento de que não podemos falar de algo que desconhecemos, o silêncio, em reverência àquilo que escapa da nossa compreensão, deve continuar como um pacto velado.
É sobre isso, aliás, que o pensador e filósofo G. K. Chesterton, autor da obra centenária Ortodoxia, discute ao analisar tanto a tradição católica como o racionalismo. O criador do personagem Padre Brown, uma espécie de teólogo-detetive, expõe a sua fé pessoal dizendo que, por meio do silêncio, podemos chegar a alguma resposta mais aceitável do que interpretações subjetivas do mundo, enviesadas de acordo com o ponto de vista de cada indivíduo.
Assim, ao invés de calar as nossas dúvidas, apresentando a verdade absoluta, devemos seguir o exemplo do escritor russo Dostoiévski: "meus hosanas nasceram de uma fornalha de dúvidas". Talvez as indagações, que só podem ser ouvidas na quietude e solidão (difíceis tarefas para os nossos tempos modernos), nos levarão às respostas mais sublimes. E menos conceituais.

